A pesquisa de Emmi Pikler e Marta Geber e a Pedagogia Waldorf
- Sara & Felipa Educa_são
- 5 de mar. de 2021
- 8 min de leitura
Atualizado: 13 de mar. de 2022
Os cuidados na primeira infância
Nunca se falou tanto, e ainda bem, na abordagem Pikler e muita gente nos pergunta qual a associação entre a Abordagem Pikler e a Pedagogia Waldorf e existe imensa confusão na informação transmitida por aí, por isso pensámos ser importante informar os pais e cuidadores de qual a história desta relação tão bonita e próspera.
Primeiro pensamos ser importante informar, para quem não faz ideia do que estamos a falar, de quem são estas pessoas e qual a sua contribuição para o olhar a criança pequena de uma forma holística e respeitadora.
Emmi Pikler começou a trabalhar como pediatra na Hungria em 1935, e rapidamente conquistou o respeito dos seus colegas. Ela deu palestras sobre cuidados e nutrição de bebés e crianças e, por dez anos, dirigiu sua própria prática como médica de família até à II Guerra Mundial.
Depois da guerra, Pikler não abriu o seu consultório particular novamente, mas trabalhou para uma associação nacional para crianças abandonadas e desnutridas. Além de outras actividades, fundou em 1946 o orfanato Lóczy (que adoptou o nome da rua onde fica), que dirigiu até 1979.
Graças ao treino completo das enfermeiras e à consideração cuidadosa dada ao ambiente, Pikler conseguiu criar um ambiente familiar que permitiu às crianças crescerem sem os sintomas usuais de abandono e internamento.
Emmi Pikler estudou e observou incansavelmente as crianças e, a partir dessas observações, formulou a sua própria abordagem altamente diferenciada para um desenvolvimento independente do movimento infantil. As contribuições de Pikler para a educação das crianças estão principalmente relacionadas a:
1. Cuidado infantil
Nesta área, ela concentrou-se na relação entre adultos e crianças, na qual o adulto carrega a responsabilidade pela interação positiva. Calma interior e presença, no cuidado da criança, são a base da Pedagogia de Pikler. Cada acção deve acontecer de acordo com a criança e, assim, levar a um vínculo seguro.
2. Movimento auto-gerado/autonomia
Um segundo ponto essencial é permitir que a criança tente fazer tudo sozinha. Deve-se dar espaço suficiente para essa necessidade fundamental da criança. O objectivo de Pikler era permitir o livre desenvolvimento do movimento e dos ritmos individuais.
3. O Ambiente
Outra parte do seu conceito é a consideração cuidadosa dada ao ambiente, com o intuito de criar uma atmosfera de segurança onde as brincadeiras e os cuidados possam ocorrer harmoniozamente e de acordo com a idade da criança.
Pikler baseou a sua visão pedagógica em observações reais extremamente ricas. Ela descobriu a variedade e variação no desenvolvimento infantil e distanciou-se de quaisquer programas e normas pré-concebidos. Ela percebeu que as crianças desenvolvem-se de acordo com as suas próprias leis internas e naturais se os adultos lhes derem a liberdade necessária. A presença atenta dos adultos e a sua relação positiva com as crianças são condições necessárias para o desenvolvimento infantil. Este é fortalecido pela linguagem com que os responsáveis respondem às crianças e comentam as suas ações. Eles não explicam, fazem perguntas ou ensinam a criança, mas sim descrevem e denotam as acções das próprias mãos.
Marta Geber era uma jovem mãe com uma filha com dores de garganta, num dia em que o seu pediatra regular não estava disponível. A sua filha sugeriu então que ligassem para a mãe de uma amiga e companheira de brincadeiras, "a mãe de Anna", porque ela era médica.
Marta assim o fez, e aí começou uma vida inteira de amizade entre Magda Gerber, a mãe, e Emmi Pikler, a pediatra. E a menina, Anna, agora é diretora do Instituto Pikler em Budapeste.
Magda Gerber ficou tão comovida com a forma tão respeitosa com que a Dra. Pikler tratou a sua filha que decidiu ir trabalhar com ela, estudou para obter um diploma de mestrado em desenvolvimento infantil e, em 1946, retomou o seu trabalho em Loczy.
Gerber e Pikler trabalharam juntas até à ocupação comunista em 1956, que tornou a estadia da sua família na Hungria impossível. O marido de Marta foi preso pelas suas crenças políticas; a filha dela- ainda na adolescência- foi presa depois de ser apanhada a tentar atravessar a fronteira para fora da Hungria. Não é difícil então de imaginar que a crença apaixonada de Magda Gerber pela liberdade de cada criança para se expressar através das suas próprias escolhas de movimento, no respeito de cada pai pelo seu filho, tenham sido profundamente reforçadas por estas experiências.
Quando se vê o trabalho do Instituto Pikler em video, os mesmos princípios da educação Waldorf de ritmo, de repetição e de atenção aos sentido e ao toque, que são evidentes em cada toque suave, sensível e gesto deliberado do cuidador. Além disso, observamos o processo de imitação na resposta da criança ao cuidado do cuidador, oferecido da maneira mais profundamente respeitosa e, por si só, uma resposta ao próprio gesto de compromisso e cooperação da criança.
Pedagogia Waldorf
A abordagem Steiner/Waldorf é baseada no trabalho do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner, que desejava criar uma forma de educação que ajudasse os alunos a obter clareza de pensamento, sensibilidade de sentimentos e força de vontade. Depois de ouvir as suas palestras os trabalhadores da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria em Stuttgart, com o apoio do dono Emil Molt, pediram-lhe para formar uma escola para os seus filhos e em 1919 a primeira Escola Waldorf foi fundada. Hoje, das favelas de São Paulo às aldeias do Nepal, existem cerca de 800 escolas e mais de 2.000 estabelecimentos de primeiros infância em mais de 60 países recebendo crianças desde o nascimento aos 18 anos de idade. Os jardins de infância começaram em 1926 e espalharam-se primeiro entre os países europeus e nos EUA, antes de se espalharem pelo mundo.
A abordagem da primeira infância de Steiner/Waldorf considera a interdependência do desenvolvimento físico, emocional, social, espiritual e cognitivo. Ela leva em consideração a criança como um todo, incluindo as qualidades da sua alma e acredita que a aprendizagem das crianças floresce de forma calma, pacífica, previsível, num ambiente familiar e sem pressa que reconhece as sensibilidades sensoriais da criança. Crianças pequenas precisam experimentar a relevância do seu mundo antes de se separarem dele e começar a analisá-lo de uma forma imparcial.
Existe um "currículo Waldorf para a primeira infância?"
O que torna Waldorf a educação infantil “Waldorf"?
Rudolf Steiner falou em várias ocasiões sobre os fundamentos da educação/cuidados para a primeira infância . As suas palavras iluminam o que ele considerava fundamental:
Essencialmente, não há educação além da auto-educação, seja qual for o nível. Isto é reconhecido em toda a sua profundidade dentro da Antroposofia, que tem conhecimento consciente por meio espiritual e da investigação de repetidas vidas na Terra. Cada educação
é auto-educação e, como professores, só podemos oferecer o ambiente para a auto-educação das crianças. Nós temos que fornecer as condições mais favoráveis onde, por meio da nossa acção, as crianças possam educar-se de acordo com os seus próprios destinos. Esta é a atitude
que os professores devem ter com as crianças, e tal atitude só pode ser desenvolvida por meio de uma consciência sempre crescente desse facto.
( Rudolf Steiner, The childs changing consciousness as the base o pedagogical practice.)
Portanto, o elemento essencial da educação na primeira infância é na verdade o educador/cuidador, que molda e influencia o ambiente das crianças, não apenas através do mobiliário, das actividades e ritmos do dia, mas mais importante, através das qualidades do seu próprio ser e da sua relação.
Essas qualidades, que incluem atitudes e gestos externos e internos, permeiam o
cenário da primeira infância e influenciam profundamente a criança, que as segue por um processo de imitação.
Vista desta forma, a educação infantil exige um processo contínuo de auto-educação por parte adulto.
Se perguntarmos novamente, o que torna os cuidados Waldorf, “Waldorf”, as respostas podem ser encontradas menos nas actividades ou ritmos particulares, nos materiais e móveis, e na medida pela qual estes aspectos externos são harmoniosos, mas mais pelas expressões de qualidades internas, atitudes, capacidades, e intenções do cuidador/educador - todas as quais têm um efeito benéfico para a saúde das crianças, tanto no momento como para o resto das suas vidas.
O conselho de Rudolf Steiner para a primeira educadora Waldorf, Elizabeth Grunelius, no início de 1920, poderia ser parafraseado da seguinte forma:
Observe as crianças. Medite activamente. Siga a sua intuição. Trabalhe através da imitação.
E aqui entra a questão actual, Steiner nunca deu um currículo para a primeira infância, e muito menos para a etapa dos 0-3 anos, pois na sua época as crianças permaneciam na sua maioria em casa com as mães ou familiares. Não existiam creches Waldorf!
Toda e qualquer bibliografia vinda directamente de Steiner em relação à primeira infância, provém da compilação das suas palestras e do seu estudo do desenvolvimento do ser humano e da base da antroposofia e pedagogia waldorf, a auto-educação. Daí não haver indicações directas, toda a educação Waldorf para a primeira infância (0-7) baseia-se na auto-educação do educador/cuidador da criança e no seu estar e respeito pela criança e sua individualidade, e no seu estudo da Antroposofia que quer dizer sabedoria humana; conhecimento ou compreensão da natureza humana.
Então o que pode ser dito sobre a relação entre as observações e percepções de Pikler e a Antroposofia:
* Pikler baseia as suas descobertas no desenvolvimento independente do movimento infantil na observação real e, portanto, complementa a antroposofia; "Aqui, novamente, a regra é que devemos deixar tudo para a própria criança fazer. A criança por conta própria se levantará em posição vertical quando chegar a hora certa. Esforços prematuros de fazê-la caminhar e ficar em pé ou exercícios de ginástica podem apenas causar danos. ( Rudolf Steiner, Andar, falar, pensar, 1923)
* Ambas as teorias não são baseadas numa norma pré-concebida ou programa de desenvolvimento infantil, mas sim assumem que existem leis naturais inatas em acção dentro da criança. Essas leis desdobram-se de acordo com o ambiente projectado pela criança;
* Ambos os conceitos enfatizam a importância de um ambiente bem cuidado como um factor crucial no desenvolvimento da criança. Rudolf Steiner enfatiza - assim como Emmi Pikler sugere - que, “apenas o ambiente físico adequado pode influenciar a criança de tal forma que os seus órgãos físicos possam crescer nas formas corretas”
* Os adultos têm uma função central como modelos para a criança pequena, tanto na visão de Pikler quanto na de Steiner. O desenvolvimento da criança pequena pode orientar-se para o adulto e, assim, aumentar as forças de imitação da criança. Para Pikler, a autonomia e o bem-estar da criança eram fundamentais. A principal responsabilidade do cuidador é obter a cooperação da criança, oferecendo-lhe cooperação. E conforme a criança cresça, ela vai oferecer mais e mais para seu relacionamento mútuo. O sentido da vida e o sentido do tacto na criança é desenvolvido com grande delicadeza pela sensibilidade do adulto. Essas são as qualidades também que nós, como educadores Waldorf, nos esforçamos para desenvolver.
* Ambos vêem o brincar livre como essencial e sugerem que o cuidador não ajude ou interfira com ele. Pikler promove o livre desenvolvimento do movimento da criança como base para o desenvolvimento do seu caráter. Steiner enfatiza a importância do livre desenvolvimento do movimento como base para o desenvolvimento da fala, do pensamento e da auto-consciência que se segue ao desenvolvimento inicial do movimento.
Como tal toda a comunidade Waldorf desde há 20 anos está grata a Emmi Pikler pela sua escola de pedagogia infantil com base nos seus estudos e descobertas. Hoje, muitos professores e pesquisadores de mente aberta estão interessados nas suas ideias. Suas observações, descobertas e conselhos práticos são desenvolvidos e publicados pela Sociedade Pikler em Berlim e também por sua filha Anna Tardos em Budapeste, onde palestras e cursos são realizados.
Nós ouvimos falar pela primeira vez em Emmi Pikler através de Claudia Grah-Wittich directora de uma creche na Alemanha que fora das primeiras a associar materiais e abordagem Pikler, pedagogia Waldorf e educação na natureza, em 2010, na Primeira Conferência para A Primeira Infância no Goetheanum ( a casa mãe da Antroposofia).
Rapidamente nós no Jardim de Infância S. Jorge começámos a adoptar algumas alterações ao materiais e, em 2014, ambas fomos a Madrid fazer um Workshop sobre a Abordagem Pikler. Na altura éramos a única, e continuamos a ser, creche waldorf na região de Lisboa, houve vários projectos que não continuaram, e encontram-se outros projectos chamados de inspiração nestas abordagens. Em Espanha, tendo em conta o número de iniciativas Waldorf para a primeira infância, esta parceria teve um rápido crescimento e começaram a surgir estas pequenas formações tendo em conta que os cursos em Lóczy são muito caros e longos, para não falar da viagem e estadia até à Hungria.
No anos passado a Felipa fez uma nova formação Pikler com a Lúcia Peçanha, em Julho, online.
Hoje em dia, felizmente é algo aplicado e cada vez mais difundido entre os cuidadores e pais e existem imensa informação online sobre o assunto para quem quiser aprofundar e seguir a abordagem, algo que esperemos passe a fazer parte dos currículos da formação de educadores e amas.
Para mais informações sobre as convergências de Pikler e Waldorf, em inglês, apresentadas na conferência de Educação nos Primeiros Anos no Goetheanum em 2016, pela filha de Emmi Pikler.
https://www.erziehungskunst.de/en/article/waldorf-worldwide/how-children-thrive-international-early-childhood-conference-in-dornach/